A Mariana diz sempre que não estava para ir ao festival. Tinha comprado o bilhete em Abril, com um amigo que desistiu em Maio, e passou quinze dias a tentar vendê-lo num grupo de Facebook. Ninguém queria porque o preço subiu. A Mariana, teimosa, deixou o bilhete na gaveta e no dia do primeiro concerto apanhou o Alfa Pendular para o Porto só para ir, sozinha, à sexta-feira à tarde. Esse sozinha foi o primeiro acaso.
O Tiago tinha-se mudado para Lisboa em Março, depois de três anos em Utrecht. Engenheiro de software, trinta e quatro anos, de volta ao país depois de longo período fora. Já não tinha grupo de amigos em festivais, e comprou bilhete para o Primavera Sound no Porto porque — nas palavras dele — precisava de um dia em que ninguém me conhecesse. Chegou ao Parque da Cidade na sexta perto das seis da tarde.
O encontro, em detalhe
Estavam ambos a ver o Aldous Harding no palco Porto, a segunda fila, pouco depois das oito. A Mariana tinha o telemóvel na mão a tentar ler uma mensagem. O Tiago reparou porque ela ria de algo que o telefone dizia — não uma gargalhada, um sorriso pequeno. Começou por dizer que o ecrã dela estava a iluminar-lhe a cara. A Mariana mostrou-lhe o ecrã: era um texto do irmão dela a queixar-se do sobrinho ter saído sem jaqueta. Riram, os dois. O concerto durou mais cinquenta minutos.
A seguir a Aldous Harding, caminharam até o palco Vodafone para o Squid. Pelo caminho, passaram por uma banca de comida. O Tiago ofereceu-lhe um cachorro vegetariano, ela recusou, pediram os dois pão com chouriço. Sentaram-se no chão entre palcos. Falaram dos sítios onde viveram — ela em Braga desde sempre, ele em Coimbra, Aveiro, Utrecht. Falaram do absurdo de a Mariana ter um emprego em Lisboa e ainda não morar lá. Não disseram, nessa noite, que estavam no MyTripDate. Esse pormenor veio depois.
O app não entra na história — ao início
Tinham ambos perfil ativo na MyTripDate há meses. Nunca se tinham cruzado lá, porque a Mariana filtrava até aos oitenta quilómetros e o Tiago, recém-chegado, ainda tinha o raio de pesquisa aberto sobre os países nórdicos. Só três semanas depois do festival, quando o Tiago estava a arrumar a fotos do fim-de-semana, é que descobriu que a Mariana existia também na app. Enviou-lhe mensagem a perguntar se era coincidência. Ela respondeu com um print do perfil dele, que também tinha encontrado duas noites antes.
Não nos conhecemos pelo app. Mas foi o app que nos deu a confirmação de que não era acaso total.
Essa conversa de descoberta dupla — dizem eles — foi o momento em que o festival deixou de ser encontro casual e começou a ser história.
As semanas seguintes
A primeira dificuldade foi a geografia. A Mariana morava em Braga, trabalhava remoto para uma empresa portuguesa com sede em Lisboa. Ia a Lisboa duas vezes por mês. O Tiago, recém-aterrado em Lisboa, trabalhava presencialmente quatro dias por semana num escritório em Santos. O plano montou-se sozinho: nas semanas em que a Mariana descia, jantavam em Lisboa; nas que ele tinha folga ao sexta, ele apanhava o Alfa para o Porto ou para Braga.
Esta rotina durou seis meses. Ambos concordam que foi dos períodos mais saudáveis da relação — por uma razão que raramente se diz: a distância impediu-os de viverem em modo doméstico cedo demais. Quando se viam, o tempo era denso. Quando não se viam, falavam por WhatsApp e mandavam pequenos vídeos da Quinta da Malagueira ou da Rua de Cedofeita, gestos pequenos sem pressão de plano.
A mudança para Coimbra
A decisão de viver na mesma cidade levou quase um ano. Lisboa era cara para ambos. Braga era fora da rota dele. Porto era demasiado caro para a escala de salário dela. Coimbra apareceu como solução óbvia: ela tinha família por perto, ele tinha uma oferta de trabalho híbrido em Aveiro (50 minutos de comboio). Coimbra ficava no meio. Alugaram um T1 na Baixa por 650 euros, em Janeiro, e ele começou a fazer comboio três dias por semana.
Esse detalhe — o comboio de Coimbra para Aveiro às sete e meia da manhã — aparece nas conversas deles como um capítulo importante. O Tiago diz que foram os meses em que soube o que queria da vida. Vinte e cinco minutos de comboio, um café na estação, e tempo real para pensar longe dos dois ecrãs. Hoje, três anos depois, o Tiago ainda faz esse comboio, ocasionalmente, mesmo que já não precise — emocionalmente.
Três conselhos que eles repetem
- Não forcem a geografia cedo. Os primeiros seis meses deles foram entre Braga, Lisboa e Porto. Manteve tudo em escala certa, permitiu continuar a serem quem eram antes.
- Encontrem uma rotina pequena que é só vossa. Para eles, foi o almoço no Café Montanha no Porto, sempre aos domingos quando calhava estarem lá. Mesmo agora em Coimbra, é um dos três, quatro rituais que mantêm.
- Escrevam datas importantes num sítio físico. Têm um calendário de papel no frigorífico. Parece velho, mas diminui o número de quando é que nas conversas dela.
Onde estão agora
Continuam em Coimbra. A Mariana mudou de emprego há oito meses para uma empresa também em Aveiro, e agora fazem o comboio em dias alternados. Têm um gato chamado Duarte, que apareceu à porta deles em Outubro passado. Não são casados, não há planos de casamento no próximo ano, e ambos insistem que isso é um pormenor que não define a relação.
Quando lhes perguntamos se o festival foi o momento, o Tiago sempre discorda. O momento foi três semanas depois, quando descobrimos que éramos ambos utilizadores e aceitámos que aquela coincidência toda tinha uma forma. A Mariana acrescenta uma frase que muita gente repete em silêncio: nada se constrói num dia.
E para quem lê isto
Se algo da história deles vos fica, talvez seja isto: festivais, cafés, viagens, apps, nada disto é, por si só, o encontro. São apenas superfícies onde o encontro pode acontecer. O que a Mariana e o Tiago fizeram — e que vale a pena assimilar — foi permitirem-se sair sozinhos naquele sexta à tarde. A seguir, a cidade, a pessoa, e o tempo fizeram o resto.